domingo, 1 de abril de 2012

Realmente belo



Primeiro você se encanta pela beleza. E é só, não passa disso: um mero encantamento. Encantos que acabam à meia noite. Que são efêmeros, passageiros, que às vezes se manifestam no intervalo de poucos segundos. Que traduzem, no final das contas, algo meramente banal. Que não acrescenta, que não tem sentido prático, real, e que às vezes até desagrega. Não vivemos de encantos, mas sim de realidades, toques, sentimentos. Atração é algo muito simples, pobre. A gente precisa de mais. E, então, vai atrás desse “algo mais”.
          Depois você melhora o modo de ver as coisas, passa a perceber certos detalhes que estão muito além da estética, que tem mais valor. A força, por exemplo. Os talentos. O que há de bom. O encanto se transforma, então, em admiração. Manifestada em vários acontecimentos espontâneos: calafrios, brilho nos olhos, friozinhos na barriga. E que legal que é. Dura muito, intensifica-se e nunca morre. Nesta altura do campeonato, beleza já se tornou algo secundário, sem importância, parâmetro dispensável. Configura a chegada em outro nível: o conforto visual transforma-se em detalhe, o que antes era tudo, agora é quase nada; se desgastou, perdeu o efeito.
          É hora de ver além do que os olhos podem: o íntimo, a alma. O que realmente é bom e belo. A importante peça que completa o ato de amar. Tudo virou questão de aprendizagem, de tempo. É muito didático, é quase matemática. É como ver um baú banhado a ouro e se admirar por tão maravilhoso objeto.             Depois abri-lo e perceber que o que está contido nele é milhões de vezes mais cintilante e valioso. E, aí, conhecer verdadeiramente o que merece admiração e atenção, o que te trará, de fato, bons frutos. O baú agora tem de pouca serventia, pode ser substituído a qualquer momento. Volta a ser apenas um recipiente qualquer. E recipientes são fáceis de achar, difícil é encontrar miolo, algo que os preencha. Valorize o conteúdo, e não o continente.
             Beleza virou agora apenas um elemento de detalhe. Como um quadro que enfeita uma sala: apenas embeleza, mas não é essencial, só acrescenta, o conforto da sala, que é o mais importante, não é influenciado por ele. Você nem sabe mais dizer se a amada é bonita ou feia. Porque a questão ser bonita ou feia ficou muito pequena diante de todo o mais. É por isso que as pessoas se casam, envelhecem, desgastam-se, mas continuam se amando. Porque beleza, aparência e afins ficam muito insignificantes diante da grandiosidade que é o amar. Você não vê mais com os olhos, enxerga apenas com o coração. Vê além. Vê almas, e não rostos. Vê o que para sempre vai existir, e não o passageiro. Fica cego ao mundo e vislumbra a eternidade.
            O amor já é belo demais sozinho. É suficiente. Ame com o coração e não com os olhos. Ao coração nada passa, aos olhos, quase tudo que importa. O olho divide, o coração soma. E amar é somar.

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